ALAORPOETA
26 Março 2012
ESPAÇAMENTO
Entre o nada de antes
e o nada do depois
a vida floresce
entre dois túneis
do esquecimento:
- O sonho da morte:
"ciranda cirandinha
vamos todos cirandar
vamos dar a meia volta
volta e meia vamos dar"
são sensações
como quem pica o fumo
como quem morde a isca
seria uma comichão eterna
se não fossem espaços
entre dois túneis:
"ai, eu entrei na roda
ai, eu não sei como se dança
ai, eu entrei na rodadança
ai, eu não sei dançar"
sonho curto? - pernilongo
sonho besta? - maçaneta
sonho pesadelo? - dois buracos outrora
residências duns olhos...
somente sonho? - não lembrar nada:
"por isso dona rosa
entre dentro desta roda
diga um verso bem bonito
diga adeus e vá se embora"
"boi, boi, boi
boi da cara preta"
cercado alimentado
à espreita
enquanto não acorda para o açougue
rumina pensativo
no princípio da dignidade humana
dos humanos:
- O sonho da morte são gotas
de dipirona.
alaorpoeta
ilustração: pintura de Hans Thoma (1839-1924)
08 Janeiro 2012
NOVO ANO VELHO
Eu podia adocicar o poema
mas ao amor prefiro o odor de sêmen
as estrelas do motel coloridas
luzindo as letras do cartão de crédito.
Neste ano novo eu podia esculpir
novas fórmulas sob riscos em forma
de castelos nutrir porta-retratos
opacos de uma essência renascida.
Mas onde sepultar as velhas sombras
do abismo nos atalhos de rapina
sempre me seduzindo para o salto?
Como me recuso e afronto seus olhos
adoto a fronte do filho esquecido
em busca da própria imagem na foto.
alaorpoeta
Ilustração: tela de Willian Blake
05 Janeiro 2012
O VENCEDOR SOCIAL
Ganhava bem
pois desde criança
decorou a cartilha
embora quisesse
ser outra
alguma coisa
diferente
o que poderia ser?
se nunca passou
de ilustração
esboçada
do espelho social.
Três casamentos
cinco vias de fato (são detalhes)
dois filhos
(um drogado
outro bem encaminhado)
membro honorário
do Rotaeri (por merecimento)
seis recusas ao bafômetro
(sempre sem fôlego
e muita prepotência
para assoprar)
sete mandatos eleitorais
vinte e cinco processos
(por motivos políticos?)
e a penhora do carro?
o empregado
no pau?
a delegacia da mulher?
o desvio?
o pavio?
a origem do rio
de dinheiro?
As flores da vergonha!
Quem viu?
O que viu?
Mentiu.
Usufruiu.
Tudo é uma questão de mercado.
Depois de tanto subsídio
embarrigou
de excessos
alimentícios bebedícios
truculícios
e se foi mortal
que era
exausto
de fartura
numa explosão
de aplausos.
Virou nome de rua
palmas pra ele.
alaorpoeta
Ilustração: tela sobre óleo "Crânio humano no espaço" de Damien Hirst
27 Novembro 2011
PERPETUAÇÃO
Numa tarde sentei o tempo no meu colo
desnudo abobalhei o sentido da rosa
dos ventos que exausta caiu molhando os lábios
secos e se foi como num lapso trago.
Quis o tempo veloz abater-se imóvel
retratado no espelho dos olhos eternos
quando vi meus antepassados a cavalo
eu mesmo hesitava em cima duma árvore.
Sobre minhas coxas trêmulas nus pentelhos
ornamentais no rígido fogo das grelhas
à espera entre pernas do sopro de espermas.
Numa tarde sentei o tempo no meu colo
quando pude ser alguém capaz de apalpar
a eternidade nove meses depois.
alaorpoeta
ilustração: "Harlequin family" de Pablo Picasso
13 Novembro 2011
O PALCO
Como é lindo e limpo
o cemitério
no dia de Finados
flores variadas cores
à sombra das árvores
o espelho das covas
silencia o futuro
ou serão das frutas
o perfume das fotos
renascidas do útero
fecundo das lágrimas?
mas o ano é longo
e a realidade curta
24 horas
os mortos dos vivos.
alaorpoeta
05 Novembro 2011
POESIA de URGÊNCIA
Para que serve
a reflexão
sobre o fazer poético
quando
meu corpo fede
mãos piedosas pedem
membros se agigantam
filhos trêmulos
cabeças de cérebro
perguntas se calam
diante da fome
de carne viva e morta
a apodrecer e apodrecendo
é preciso
comer comer comer
Roçzeiral ex vano
eu quero logo
o logro real
dos sentidos
a vida que me dá direitos
morto não sou
nunca fui
existo para o fim
dos meios
Fazer poesia é gozar na cara
na própria cara
enquanto não chega
ser fotografado
para o fugaz
eterno
O mundo?
é viver numa pedra
chamada Terra.
alaorpoeta
Ilustração: "Os retirantes" de Cândido Portinari
01 Novembro 2011
O ALÉM DO HOMEM
Quando não houver mais espelhos
cada rosto será a morte
enredada por entre os dedos
de sombras frias em desordem.
Rabiscos de diversas cores
estradas de olhos opacos
no vão dos neurônios valores
fios teclas memórias no vácuo.
O vórtice cinza do amor
de sonhos e mágoas do homem
nos metálicos chips sem nomes
saudades num mundo sem dor
quando as alegrias e dramas
serão conflitos de programas.
alaorpoeta
Ilustração: pintura de Jean Michel Basquiat
30 Outubro 2011
IDEOLOGIA
Quanto mais penso
no Poder
chego sempre ao
arbitrário
então descanso
nas formas ideais
na dureza dos fatos
no imponderável
do cotidiano
procuro morrer
de viver
a morte do pensamento
enquanto águas de sangue
me afogam no imaginário.
Da liberdade
só nos resta
mastigá-la
impermeável
antes de tudo
sustentá-la
como a folha
de uma grande árvore
e a árvore
perante todas as árvores
e todas as árvores
aleatórias
frente ao universo
do infinito
de tudo
que é nada.
alaorpoeta
Ilustração: A execução de Maximiliano - 1867 - Edouard Manet
22 Outubro 2011
DUALIDADE
Quem sou eu?
habitante deste corpo
frágil
com prazo de validade
em segredo
que me carrega
autoritário
escravo
às vezes
dou-lhe o troco
digo pare
levante-se
dance uma valsa
Mas quem sou eu?
inventor de mundos
viajante estrelar
sucumbo
à unha encravada
parasita fiel
desconheço
outro corpo
mais moço
mais belo
com pernas
para um chute
mais potente
futura vítima
deste algoz
assassino
impiedoso
de mim
Será eu?
ao contrário
explorador
de peles bocas dedos olhos
cérebro
até reduzi-los a
ossos
quando serei
apenas
versos
Eu?
Quem sou eu?
que pensa
neste efêmero
corpo
andante?
alaorpoeta
Ilustração: "Aula de anatomia do Dr. Tulp" - (1632) - Rembrandt
16 Outubro 2011
13 Outubro 2011
TRANSIÇÃO
Adeus ao riso
nascia triste na boca
o primeiro siso
alaorpoeta
Ilustração: "Puberdade" - Edvard Munch
12 Outubro 2011
BODE EXPIATÓRIO
Bandidos de gravata
toga farda óculos
chapéu batina
bandidos de luxo
capacete gabinete
pés de chinelo
calaram a boca...
o escuso foi preso
parecia Jesus
pelado na praça
alaorpoeta
Ilustração: "Dante e Virgílio no Inferno" - Willian-Adolphe Bolguereau
09 Outubro 2011
VISÃO DE UM CACHORRO FELIZ
Cheguei ao vazio e pus-me solitário
banindo qualquer intenção do nada
o dia flui e a noite abre as pernas
cálidas feridas em preto e branco.
Rasguei cavernas grotescas de sexo
fundo engolfei famílias de paixões
suguei a pintura do arco-íris
e me fiz estátua de cemitério.
Das ilusões passadas na montanha
guardei o ar reprimido do peito
tentáculos de flores e perfumes
a vida faz de conta entre dois túneis.
Porque desde o início fui máquina
o pensamento a serviço da dor
pintei meu tempo com olhos daltônicos
guspi nas trevas a luz que me falta.
Sede não sinto pois vivo no poço
se tenho fome procuro uma língua
que se faça entender pelo cifrão
uso meu bolso e me chamam Doutor.
Tenho vergonha da felicidade!
queria apanhar o sol com as unhas
na guerra fuçar sobre chão minado
gostava mesmo que o mundo acabasse.
Na reconstrução da minha história
sem pet-shop meus pelos compridos
fétido voltaria a ser um lobo
selvagem no espelho da dignidade.
alaorpoeta
ilustração: "Velho guitarrista cego" - Pablo Picasso
08 Outubro 2011
29 Setembro 2011
FLORES DA VERGONHA
Buracos negros de silêncio
de formas ausentes são pedras
entre postes a ponte pênsil
no vazio de sombras incrédulas.
O céu misturado ao chão
sem vida jaz saudosa chuva
rasteja em busca do perdão
do morto arco-íris: viúva.
Desabrigadas de sentidos
vestígios de mundos ruídos
vermelhas flores solitárias
como a zombar dos fracassados
atravessam pisos minados
e anormais nascem de cesáreas.
alaorpoeta
Ilustração: pintura de Adalberto Francisco Tristante
12 Setembro 2011
25 Junho 2011
CONCUPISCÊNCIA
Há um céu retrato de chão
no abismo de nossos desejos
um palpitar sôfrego em vão
e uma língua oculta em beijos.
Orifícios copulam mastros
guerras se entrelaçam em camas
entre castos e mundos vastos
a carne se aviva em chamas.
Pensar que é a vida senão
prazer de cada tentação
enlevos do próprio calvário
concúbitos entre cajados
filas de buracos cavados
o sol germinando do armário.
alaorpoeta
Ilustração: "A tentação de Santo Antão" - Hieronymus Bosch
30 Maio 2011
ONIPOTÊNCIA
Quando criança brincávamos
de ser gente importante
do mundo dos adultos.
Um dia fui Deus...
Enquanto José erguia cidades
Maria trocava fraldas
eu abobalhava uma formiga
numa caixa de fósforos redonda
azul vista do espaço
e dizia: - Comece a rezar!
Deixava um curto escape
de liberdade. Mas advertia:
- Só quando eu quiser!
Então a formiga, sempre,
porque era formiga
e não sabia o que fazia
desafiava pelo orifício
seu cérebro de saudade
e com olhos de finitude
lograva a consciência
na guilhotina de Deus.
Nunca entendi o despropósito
daqueles seres ínfimos
a corroer minhas dúvidas
porque jamais me deixaram
brincar de ser formiga.
Quando cresci
virei formiga de verdade.
alaorpoeta
Ilustração: pintura de Willian Blake
22 Maio 2011
PASSAGEIROS EM TRÂNSITO
Partíamos a destinos disformes
sombras etéreas de fátuos momentos
olhos ausentes vagando uniformes
o silêncio aflito dos pensamentos.
Peles multicores feitas de roupas
secretas coxas estirpes gravatas
borboletas cobras veladas bocas
e o céu metálico nas mãos fumaça.
Fixávamos suaves miragens
no átimo da infância livres bagagens
o último adeus do sabor das almas
a fila móvel nos pontos amargos
quando corpos doentes dos encargos
acolhem outras formas bem mais calmas.
alaorpoeta
Ilustração: "El Camión" (1929) - Frida Kahlo
19 Maio 2011
GOLES EXTREMUS
O sumo cálice transborda
e limpa formas adiposas
róseas faces náuseas bordas
sonsas famílias nebulosas.
O mijo pueril engole
o gole senil de quem viu
séculos de desprezo à prole
ébrios no consumo febril.
Entre olhares vagos vulgares
velando castrados os lares
louvadas as últimas taças
sob céus de chumbo impávidos
de rubro chão e mundos grávidos
do estupro de todas as raças.
alaorpoeta
Ilustração: "Bacchus" - Peter Paul Rubens
14 Maio 2011
GENEZÍRIUS HUMANUS

Era uma vez ideais árvores
mil infinitas cores frutos
raízes débeis sonhos mármores
nutrindo sombra os cocô-rutos
lagartas farinavam cócegas
grávidas bobasletras-leques
cigarras fumegavam trócegas
entre um poema vários cheques
tudo começou com um sim
molécula a outras mulhéculas
penso existo logo dindim
houve récuas tréplicas féculas
da pré-história à palavrória
e havia o nunca e havia o sim.
alaorpoeta
Ilustração: "A árvore de amora" (1889) - Vincent Van Gogh
09 Maio 2011
ESTUPOR
Jaz sempre chegando.
Estagnar-se nas formas
que as duras pedras
fazem da gente:
soldados de retrato
salvos pelo flash.
Numa única lágrima
represado fôlego
interesses escusos
compromissos inadiáveis
boletos em trânsito
fantasmas insepultos
da inútil Metrópole
mas com dentes de ouro
chegando... chegando...
Oh! Seria bom partir
fecundar as fotos
fatos fogos feras
espermatozoide incauto
a mundos nascituros
órbitas sem núcleos
imprevistos gozos
nas possibilidades múltiplas
do útero infecundo.
Vivê-los intensamente
no futuro sem origem
rebento abandonado
do presente absoluto
partindo... partindo...
alaorpoeta
Ilustração: poeta Arthur Rimbaud
07 Maio 2011
DUAS MÃES
Dois cidadãos
filhos
da mesma cidade:
o X e o Y
X é pobre
Y é rico
valor de X:
um terço de Y
valor de Y:
3X
o Y forja o progresso
o X é invisível.
Dois filhos
do mesmo ventre:
o X e o Y:
X igual a Y
elevado ao
amor irrestrito
de uma MÃE!
alaorpoeta
Ilustração: "Mãe com seus dois filhos" - William-Adolphe Bouguereau
04 Maio 2011
NEGÓCIO DA CHINA
É uma grande empresa
de lavanderia
há séculos no ramo.
Seus donos originários
investiram na angústia
das sujeiras...
De capital
dizimamente
aberto nos sonhos
fechado
na contabilidade
cresceu infinitamente...
Ali não só
roupas sujas
são lavadas
mas narizes
bocas orelhas olhos peles
genitálias
e principalmente
o cérebro
tudo em nome
de Jesus
O Límpido!
Os eternos clientes
se assoam coletivamente
mas almejam sempre
a limpeza egoísta
da individualidade
chave única
para a dignidade
do merecimento
do último modelo
conversível
da Chevrolet.
Os donos do sabão
executivos da empresa
colarinhos branquíssimos
sorriso colgate
sem remorso
almas lavadas
santificaram
dois jatinhos
nos quais gozam
pelos ares
o grande sucesso
da corrente
dos empresários
tudo em nome
de Jesus
O Límpido!
alaorpoeta
Ilustração: "Crucificação" (1515) - Matthias Grünewald
01 Maio 2011
GÊNESE PÓS-APOCALIPSE
O último homem
atravessou a corda
bamba
da humanidade
soluçando
a linha do tempo
de uma nova ordem
e se fazendo
o Além do Homem.
A memória
foi reinventada
como flores de aço
nascidas no buraco
branco espúrio
dos vagos espaços
se fez também o rio
após grosso dilúvio
de sonhos azuis.
Sentindo-se só
arrancou do anverso
do peito ofegante
uma débil costela
comendo com gosto
dando-lhe pernas
numa junção de coxas
e cinco corações
sentidos
num mesmo ventre
orgasmos múltiplos
dos seios comprados
para amá-lo
eternamente
adjutora.
Funcionário Público
viu que isso
era bom
e já descansou
no segundo dia.
alaorpoeta
Ilustração: filósofo Friedrich Nietzsche
30 Abril 2011
MORTE EM CENA
O chato da vida
morrer antes que as cortinas
sejam abaixadas
alaorpoeta
Ilustração: "A morte de Marat" (1793) - Jacques Louis David
NO MOTEL...
28 Abril 2011
POETA
Semelhante ao
pássaro drogado
no silêncio negro
de fumaça e pó
também o poeta
alimenta-se
de recaídas.
Aos vinte anos
muitos são poetas,
aos trinta, os muitos
tornam-se máscaras
capitalizadas
e estão curados...
aos quarenta, restam
os terminais
molambentos da
esperança humana.
Arrastam-se nus
sobre chão de vidros
em busca da cura
do último trauma
ou do inferno que
lhes arranque logo
o incompatível
corpo já sem alma.
alaorpoeta
26 Abril 2011
A GUERRA
Mataram o nº 2, antes, calaram o nº 3,
e o nº 1 armou outro nº 2 e o nº 3 e o nº 4...
morto o nº 1, do incêndio sobreveio uma névoa,
mas o nº 0, então desconhecido, converteu-se no nº 1.
Foi aí que a santíssima guerra virou matemática
fracionária entre complexos, ordinários e infinitos.
Maioria otimista, todos os positivos foram mortos
trapaceados pela neutralidade dos ascendentes negativos.
A dízima periódica composta permeou cada alma
humana das potências elevadas ao cúmulo
ordinariamente enrustidas nos armários quânticos
dos coletivos e multiplicativos do apocalipse.
alaorpoeta
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